.Laerte.

•30 de julho de 2011 • Deixe um comentário

Com um sotaque meio paulista, meio mineiro

•27 de março de 2011 • 2 Comentários

Estava eu cá, entorpecendo minhas ideias com uma brenfa envelhecida e mergulhando meu cérebro numa cervejinha morna quando meu amigo Fonseca chegou transido. Olhos marejados, ombros arqueados, como se sentisse  peso por carregar seu próprio cadáver nas costas. Sem  cumprimentos protocolares, o canalha me fuzilou com o olhar e disparou: “estão todos mortos e continuam se fodendo”. Eu já sabia do que se tratava, mesmo assim o indaguei: “quem e o quê, Fonseca?”. Ora, todos nós – porra!

Ele acabara de chegar de sua terapia semanal com algumas ninfas de má fama que vivem nos arredores do setor Sudoeste – “bairro nobre” de Brasília.

– “Ninguém é de ferro e minha mulher tá fodendo a minha paciência, bitchô”.

Essa é sua resposta padrão, seu mantra e salvo conduto particular para essas situações. Um grande homem, um arrematado sacana: meu grande amigo.

No entanto, nunca vi Fonseca daquele jeito. Não daquela forma, meio que afogado nas palavras que falava: “me enfurno todos os dias naquela maldita sala com as venezianas fechadas, me perguntando o que acontece lá fora e o que há de errado com aquilo, sem ter certeza se culpo as putas, a bebida barata  que está me enfiando numa gastrite braba, ou a mim mesmo”.

Olhando Fonseca por entre a fumaça do cigarro percebi que o mundo que deixa de existir aos poucos para o guerreiro sacana, de certo modo, é o mesmo lugar que desaparece pra mim. Isso se chama surrealidade de rebote – anote.

“Não existe poesia alguma nisso”, escutei numa situação semelhante. A oração foi disparada por Rebeca, numas de suas tergiversações nababescas sobre putaria. Quem é a géron? Trata-se da mulher, a única mulher, capaz de mudar a minha vida numa noite. E dela só sei o primeiro nome. Vai vendo…

Enquanto Fonseca pedia sua terceira dose de uísque e desaguava novas aventuras e descrenças, eu ia lembrando cada vez mais de Rebeca. A volúpia branca de cabelos ruivos e voz macia. Quanta saudade!

***

Ainda me lembro. Num Bar da 114 Sul, Rebeca, com um copo de bebida em uma das mãos e um pouco alta. Se sentou ao meu lado, sem a menor cerimônia, cheguei a sentir suas costelas encostarem nas minhas. Quando eu a conheci tinha uns 19 anos e era muito bonita. Falava com um sotaque meio paulista, meio mineiro.

-Acabo de chegar de uma festa, estou de passagem por Brasília – ela disse –, não consegui esconder meu tédio por sua conversa, nem meus olhares para o seu decote. Seios lindos aqueles, pareciam duas aureolas com bicos rosadinhos arranhando a blusa de seda branca quase transparente que usava sem sutiã.

– Hã? Ah! Brasília? – eu disse.

Ela riu e eu a beijei.

Ela não retrucou, não achou ruim, nem meu bateu. Nem nada, nada, nada.

Você é uma moça muito bonita – eu disse. Você é uma daquelas mulheres que não vou pegar nem depois de morto. Há uma lacuna tão grande entre nós dois, todas essas besteiras cerimoniosas. É triste!

– Amanhã vou embora de Brasília – ela disse.

– Eu a beijei de novo pondo a mão em seus quadris.

– Não me importo – eu disse.

– Tenho bebida no apartamento que estou hospedada – ela disse.

– Pro inferno se vai embora ou não – eu disse – vamos para seu apartamento.

– Muito bem! – ela disse.

Eu me levantei e a segui…

Em sua casa, sentamos na cozinha para beber. Rebeca estava usando uma dessas, bem, como se chamam?… uma dessas roupas hippie, branca…  um colar que dava voltas e voltas no pescoço.

Taquiopariu!, diria um erudito intelecual pós-moderno, observando o quão a curva de seus quadris se alongava no lugar certo, o quão o bico dos seus seios apontavam paro o céu, o quão seus olhos eram verdes e o quão seu cabelo era ruivo e como gostosamente ela dançava ao ritmo da música. E eu lá, largado numa cadeira, bebendo, rijo nos lugares certos enquanto ela dançava com um copo na mão. Foi numa dessas que eu levantei e a agarrei e disse: – Não posso aguentar.

Beijei-a e toquei todo o seu corpo. Nossas línguas se encontraram. Seus olhos verdes permaneceram abertos e olharam dentro dos meus quase que inspecionando minha alma. Vai encontrar sandices aí, é melhor desplugar – pensei. Ela se afastou.

– Dá um tempo, eu já volto!

Me sentei e tomei mais uísque.

Então ouvi a voz dela:

– Estou aqui!

Fui até o quarto e lá estava Rebeca, nua, estirada sobre a cama, os olhos mirando os meus. Todas as luzes acessas, fato que só melhorava as coisas. Ela era muito branca, dos pés à cabeça, apenas os pelos da boceta tinham um tom loiro, meio alaranjado. Comecei tocando seus seios e os mamilos ficaram duros imediatamente. Coloquei a mão entre suas pernas e deslizei um dedo para dentro dela. Beijei todo o seu pescoço e orelhas, quando a penetrei, fui de encontro a sua boca. Ela remexia seu corpo em movimentos lentos, como uma serpente.

Entre uma estocada e outra eu percebi de que nada valem os poemas e as filosofias e as drogas, o uísque e o blues quando você consegue foder uma mulher bonita. Era a maior das artes concebida pelos homens.

Uma pena meu amigo Fonseca não ter conhecido uma Rebeca assim. Uma dessas que aparecem e desaparecem com a mesma prontidão. Nem se quer dizem o segundo nome. O primeiro já basta.  Uma pena as Rebecas aparecerem somente uma vez na vida. O resto, eu disse a Fonseca, é uma vida onde se aplaudem os “defuntos por vocação”.

Sacomé, né, Fonseca?! Planos de saúde e tapinhas nas costas de médicos pelo fato de prolongar seus sofrimentos até a última sonda enfiada no próprio rabo. Um encontro a um cu inexistente.

“Você me anima com sua descrença”, disse Fonseca enquanto dava boas gargalhadas. Efeito do álcool que o canalha enfiava goela abaixo com uma velocidade invejável. Eu me esforço bastante – eu disse.

“Vai por mim: o desejo cansa” – disparou o filosofo de boteco.

Ponto final. Imagem aberta. Começa a música triste. Choros e risos de hienas ao fundo, entram os créditos finais e the end.

Um passo trôpego de cada vez

•20 de março de 2011 • Deixe um comentário

Dei umas voltas pela rua, ora correndo, ora andando, ora parado, apenas vomitando. Estava totalmente inebriado, mas pensava lucidamente no que tinha acontecido. Era a mais difícil que eu recebera.

Normalmente, dizem apenas: “seu problema é seguir em frente, sempre em frente, mesmo quando é recomendável parar e entender o seu entorno” ou “volte outras vezes, ainda não consigo entender o que se passa com você”.

Mas esta resposta era a mais diferente de todas. Trata-se de minha décima terceira visita a um psicólogo. Desta vez não me respondeu na lata, nem por telefone, mas sim por e-mail. Percebi certo desprezo na atitude. Foda-se. Fui até um poste de luz, retirei o e-mail impresso em um papel a4 do bolso e reli:

Caro sr., …

Preciso de mais algum tempo com o senhor, não sei o quanto. Você possui uma reunião de ideias ótimas, mas também histórias tão repletas de prostitutas idolatradas, manhãs de ressaca e vômito, promiscuidade, elogio ao suicídio etc. Isso é preocupante. Há, no entanto, uma espécie de saga, uma espécie de diferenciação que o senhor possui e descreve. Há sinceridade no que diz. É possível, se é isso que procura, que em breve eu consiga algumas respostas para você. Depende do senhor.
Atenciosamente,
Clara Sampaio

Dobrei o papel, o coloquei no bolso e segui caminhando pela rua. Sentia-me muito bem. Pela primeira vez eu tive a sensação de que a psicóloga não estava tentando arrancar minha grana.

Enfim, me parecia que o melhor a fazer era largar a bebida e as mulheres de má fama. De toda maneira, estava se tornando difícil conseguir dinheiro para comprar o uísque, e o vinho estava arruinando o meu estômago. Mesmo que estas bebidas mágicas me proporcionassem instantes de clarividência e iluminação, era hora de parar.

Um passo trôpego de cada vez, assim eu quase me rastejava no caminho para casa. Pensava no e-mail, mas não deixava de pensar na energia animal de meus amigos humanos. Pensar que um homem pudesse trabalhar para empresas de telemarketing ao longo de um dia inteiro, ou escrevendo clichês abreviativos para “conquistar clientes” em uma empresa de marketing ou concorrendo a uma vaga num emprego público ou cometendo assassinatos, isso estava além da minha compreensão.  Não queria nem tentar entender. Continuo não querendo. Cada dia que eu consigo escapar desse modo de vida eu consigo sentir um sabor de vitória na boca.

Eu bebo uísque, fumo um sem-número de cigarros por dia, estou cada dia pior. Suicídio é minha melhor arma.  Sinto certa paz só de pensar nisso. Ah, é uma sensação indescritível de liberdade dentro desta  gaiola que me enche de tesão.  Mandar gente com olhos vitrificados pela estupidez e falta de vida interior pra puta que pariu também.

Mais ninguém

•12 de março de 2011 • Deixe um comentário

“Você é uma peste, faz da minha vida um inferno, mas eu gosto de você mesmo assim”.

Agradeci o desprendimento e a generosidade e respondi: “Obrigado”.

Ela foi em frente: “Às vezes você é um verdadeiro filho da puta, não me faz nada bem”.

Tive de lembrá-la que além de ser uma peste, um filho da puta e de fazer da vida dela um inferno, eu tinha certa dificuldade em lembrar de seu nome.

Isso que vai acima e que provavelmente lhe deixou enfadado são algumas de minhas lembranças mais irrisórias.  “Ela”, a quem me refiro, se chama ou chamava, não sei ao certo, Ana Alice… Acredito que a doce agridoce paranaense sequer tem noção de minha existência. Uma antiga namorada ou sei lá o que éramos. A única que foi tragicamente sincera comigo. E quando escrevo tragicamente, digo tragicamente. Isso, eu não tenho dúvidas, numa pessoa que possua mais virtudes que defeitos é muito bom. Como não é o meu caso, a trágica honestidade magoava deveras.

E mesmo recordando com certa amargura saudosista alguns excessos verbais, lembro que mais ninguém me tratou de modo tão sincero. Não que os canalhas que me cerceiam tenham sido desonestos comigo: mas sempre houve, merecida ou imerecidamente, certa omissão, certo eufemismo. E eu sempre admirei quem domina a arte de insultar somente com a verdade.

Agora sim, retomem seu jantar ou café da manhã

•9 de março de 2011 • Deixe um comentário

Quinta-feira. Muita chuva e calor. Fui a um desses eventos extremamente enfadonhos com os quais a classe média bundona sonha. Convém ressaltar, fui a trabalho. Tédio total. Não fosse o uísque servido em abundância eu não teria capacidade de ficar por ali. Havia um excesso de gente deslumbrada se ombreando em busca de contato olho no olho.

Recomendo aos transeuntes desse blog, quando entrarem num lugar desses, não olhem pra ninguém. Olhem para o infinito.

O problema é que esse olhar, como toda atitude blasé, tem um efeito colateral terrível: ninguém resiste a alguém que não olha para ninguém. Principalmente se você está com um crachá gigante no peito escrito imprensa. Isso significa gente chata a sua procura mostrando seus irrisórios talentos.

Sei que é muito do mesmo, mas me impressiona a quantidade de gente feliz nesses eventos fofos. Muita felicidade por metro quadrado. Logo eu, ali, naquele ambiente de gente com terno cor de marca texto se autointitulando artista pós-moderno. Logo eu, um cara debochado que acredita que o ser humano só pode se encontrar deveras em meio a crise e à solidão. Isso mesmo, a crise e a solidão.

Mas o fato não é esse. Os vinte minutos de bate papo com algumas “pseudocelebrities do mundo pós-moderno” e os vários uísques que dividiram minha mente em lâminas, lançaram minha atenção para um fato: não existe mais comportamento natural. Acredito que nem seres-humanos. Tudo foi substituído pelo show ou um resquício dele. O Pavonear. A quem impressionar e como fazê-lo. Os compromissos, reuniões e “happy hours”. As agendas. Os rapapés de fim de expediente. As rubricas de palco.

Afora toda essa coisa de regras do protocolo a serem seguidas essa gente foi capaz de inventar a pior das abjeções:  todo mundo querer agradar a todo mundo. Uma praga infantilizada. E ao que tudo indica, esse comportamento tem sido copiosamente bem repetido por algumas gosmas abestalhadas que eu conheço.

“Você não entende nada, ou, não quer entender nada” – diria Marizete, a diarista aqui de casa se lesse esse texto.

Gosto da Marizete, ela cobra um preço bem abaixo da média para uma diarista em Brasília. Mas acontece que ela – veja você, leitor, como a praga se alastra rápido – é uma das defensoras do discurso da classe média bundona: “World Peace”. Essa é de foder. E acredite, isso é pauta para toda conversa atropelante dos “ pós-modernos”, ou qualquer porra dessa que o valha.

Basta juntar os tipos: gay usando cachecol num calor de 30° + “artista” + socialites + fotógrafos. Pronto, forma-se um circo ou uma roda filosófica do século 21. A “discussão foucaultiana” é basicamente a mesma: o sistema é malvado, salvem o planeta do derretimento, paz mundial e viagens aos estaites.

Ainda lembro, na minha infância, de ouvir isso nas reportagens do jornal nacional. Faça um pouco de força e será capaz de lembrar também da meia dúzia de basbaques pedindo paz em frente a alguma praia carioca. Mas, sobretudo, nos concursos de Mis Universo: “desejo a paz mundial”. Era o sonho de todas as garotas. Não diziam coisas muito inteligentes, mas eram bonitas e isso, para nós, homens, muitas vezes basta.

Claro que ninguém em sã consciência gosta de guerra e violência e tampouco almejam um fim trágico para o mundo. Mas, “gosto” nada tem a ver com isso. Guerras e violência existem porque simplesmente existem razões para o ódio. Eu, que não sou “artista pós moderno” nem nada, sugiro pensarem primeiro em como a imaginação está se esvaindo rapidamente, resultado direto disso, nobre leitor, é o que escrevi no quinto período deste post.

Agora sim, retomem seu jantar ou café da manhã.

Para o inferno com isso!

•8 de março de 2011 • Deixe um comentário

A complacência diante do que é lugar comum, do bom por que é popular e desde a origem é heroico e, portanto, inquestionável, é a praga desse país. Afirmo isso em toda oportunidade possível. O mais nefasto é que tal complacência ramificou-se em várias camadas e dita suas miudezas e comportamentos amparando-se, entre outros discursos de merda, na lenga-lenga da “igualdade, da pluralidade e da inserção”. Para o inferno com isso!

 

Sobre almas esquartejadas, a cunhadinha tesuda e o meu novo blog

•7 de março de 2011 • 4 Comentários

Nesses dias úmidos e fedorentos de Brasília (feriado de carnaval), resolvi partir para outras instâncias – em linhas gerais – dei o pinote daquele lugar modorrento e parei aqui, na Praia do Campeche, Florianópolis, meu eterno lar. À direita, a doce companhia de uma garrafa de uísque Black Label, à esquerda algumas garrafas de cerveja e um notebook meio enferrujado. O álcool é só peça do figurino, já o notebook é para registrar e alertar aos nobres leitores do meu antigo blog que a casa mudou de endereço, mas não do conteúdo invariavelmente debochado.

O Charme Indiscreto, este bloguinho que vocês leem, notem o título, pretende ser bem mais filho da puta e distante do lugar comum do que o blog anterior, o Bloco de Notas. Isso é uma promessa.

Aqui vocês não verão “mapa moral” norteando as linhas promiscuas que escreverei tampouco temas propondo o melhoramento do mundo ou os tais valores com os quais todo mentiroso gosta de se locupletar. Aqui, se você relaxar, corre o risco de ser cooptado pela zombaria.

Maninhos, aqui vocês lerão apenas relatos de um cara atolado até o pescoço na vida, que é essencialmente um fenômeno amoral. Isto é, você vai pensar na bunda da cunhadinha e em como ela fica tesuda usando aquela roupa de ginástica.

Aqui você incorrerá em tentação, sempre. Se ainda não conhece, também adaptar-se-á aos dissabores do fundo do poço, prescindirá do mal pela raiz e aprenderá a identificar as almas esquartejadas que se rastejam por aí.

Assinem o RSS, adicionem aos favoritos ou apenas lembrem-se do endereço antes de saírem cedo para trabalhar, ou quando chegarem em casa depois do trabalho. Sem mais delongas, como diriam os filósofos contemporâneos: “tamu junto!”